ROTEIROS

DIVERSOS ROTEIROS:

O Brilho da Pérola

autor
Fernando Antonio de Medeiros

Fragmentos de memórias de um menino e sua visão lúdica na descoberta da sociedade, suas virtudes e seus vícios


famrio@gmail.com

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1 EXT. RUA - MEIO FIO - DIA
FADE IN DO BRANCO)
PEDRO
Pérola em primeiro plano, céu ao fundo, câmera em contra
plongé, menino moreno, com cerca de 4 anos, com traços
indígenas e olhos rasgados , entra em cena. Seus olhos
brilham . Ele a pega, com a ponta dos dedos, deposita na
palma da outra mão e a aproxima do rosto. Seu olhar
penetra o brilho da pérola.
FUSÃO PARA:
2 EXT. RUA - FRENTE DA CASA - DIA
PEDRO;MÃE;ANTÔNIO PAI;MOTORISTA TAXI
Dentro do brilho surge uma vila operária de casas
geminadas,idênticas, estilo europeu, em uma rua com
calçamento de paralelepípedos, um táxi está parado em
frente a uma das casas, mulher morena com cabelos negros
(mãe)e criança com cerca de quatro anos(Pedro), os dois
bem vestidos, como que chegando de viagem, portando
bagagem de mão, descem do veículo. O motorista do
taxi retira a bagagem maior da mala do carro. O menino é o
primeiro a descer do carro e fica olhando para o
motorista que tira a bagagem da mala do carro. Ela desce
elegantemente do carro,
arruma a saia rodada e olha para Antônio (Pai) que se
aproxima vindo da casa.
MÃE
Antônio, meu querido, quanta
saudade!!!
Homem moreno, de óculos, porte atlético, vestindo calça
continua
continuando (2) 2.
larga com cinto e camisa bege de manga curta ensancada,
sapatos negros, vem recebe-los à porta. Ele beija o menino
e pergunta como foi a viagem, abraça a mulher, dando-lhe
um demorado beijo de boas vindas.
ANTÔNIO PAI
Tudo bem Pedrinho? Foi boa a
viagem?
MÃE
Foi! O avião fez escala em
Maceió, Aracaju, Salvador e
Vitória, não aguentava mais bota
cinto, tira cinto. Enchi o
saquinho de papel, no litoral da
Bahia, o avião deu uma queda que
eu falei "valha-me Nossa Senhora!
Rezei muito!".
Antônio sorri e abraça a mãe e também ao filho,
encaminhando-os para a entrada da casa, enquanto pega as
malas grandes.
ANTÔNIO PAI
O litoral da Bahia sempre tem uma
turbulência. Vamos entrando. Como
vai tia Lalá? e Maria do Céu? Tem
notícias de Aidê? e Queto?
MÃE
Tia Lalá você sabe, lá nos Santos
Reis, vive daquele jeitinho que
você já conhece, da missa pra
casa, da casa pra missa...
continua
continuando (3) 3.
ANTÔNIO PAI
Sempre beata...
MÃE
Beatas né..., ela, Dudu e
Elisangela
Entram na casa, rindo e conversando animadamente
3 INT. CORREDOR DA CASA - DIA
PEDRO
Menino sai pela porta de um quarto, que mostra ao fundo as
malas desfeitas, ainda veste a roupa da chegada. Caminha
por um corredor escuro e comprido, pé direito alto, piso
de tábuas corridas, ao fundo vozes e risos dos pais que
estão no outro quarto com as portas fechadas. Passa por
outra porta que está aberta, dentro do quarto, homem
moreno com cabelos negros e rosto redondo, a barba
mal feita, está sentado em uma cama de solteiro cortando
as unhas do pé, com um cortador de unhas. Ele levanta a
cabeça e vê o menino que está parado à porta. Faz um aceno
de cabeça, e cumprimenta...
3A INT. QUARTO DO CORREDOR DA CASA -DIA
INQUILINO
Oi Pedro!
Pedro se surpreende e meio sem jeito olha para a frente
respondendo ao aceno, ao mesmo tempo em que continua a
caminhar reconhecendo a nova casa. O corredor termina na
cozinha, onde há uma porta e uma janela sobre uma pia onde
vemos um filtro de barro, um armário fechado e um fogão.
4.
4 INT. COZINHA - DIA
PEDRO; GATO
Sob a pia um gato vira-lata se insinua. O menino
acaricia-o. O gato é dengoso e se entrega ao carinho do
menino. Pedro pega o gato e o leva ao colo. Continua a sua
caminhada, com o gato em seus braços, em direção a porta
nos fundos da cozinha. Abre a porta que dá para o quintal.
5 EXT. QUINTAL - DIA
PEDRO; GATO; POMBOS; ANTÔNIO PAI
A claridade o ofusca. Ele para no topo da pequena escada
que leva ao quintal logo abaixo. Sua primeira visão é do
vulto de um pássaro pousando que passa próximo ao seu
rosto. A cena é confusa e vários pássaros voam muito
próximos, a cena vai ficando nítida e ele vê que são
vários pombos em frenesi, fazendo manobras para pousar e
outros já empoleirados em casinhas de madeira, um pombal
montado apoiado no muro embolorado que divide o quintal
com a casa vizinha. Os pombos voam mais distantes,
assustados quando veem a aproximação do menino com o gato
nos braços. O pai passa por ele em direção ao pombal onde
pega um gordo filhote de pombo (um boracho) e mostrando em
direção a porta onde está Pedro, fala para a mãe:
ANTÔNIO PAI
Maria, acho que dois destes
chegam para nosso almoço.
5.
6 EXT. ESTAÇÃO FERROVIÁRIA - DIA - ENTARDECER
ANTÔNIO PAI; MÃE; PEDRO
A mãe de mãos dadas com Pedro, caminham rápido e chegam a
estação ferroviária. O olhar da mãe procura na direção dos
trilhos o horizonte, onde se vê uma tênue fumaça da
locomotiva se aproximando e o apito avisando a chegada.
Ela procura e encontra o olhar brilhante e cumplice de
Pedro. Abre o sorriso e volta a olhar em direção aos
trilhos onde a composição já visivelmente mais próxima,
chega com estardalhaço e muita fumaça. A composição
para ao lado de Pedro e sua mãe, no meio dos vapores da
locomotiva, desce de um vagão de passageiros, todo vestido
de branco, o pai com uma maleta de couro na mão. Ao
avistar os dois, que estão a sua espera, abre largo
sorriso. Na sequência se abraçam e caminham saindo da
estação, abraçados o pai e a mãe, Pedro um pouco mais
atrás, olha admirado o entorno da estação e o trem
estacionado, olha a enormidade da locomotiva, voltando
depois o olhar para os pais que caminham conversando
alegremente.
7 INT. COZINHA - DIA
MÃE; ANTÔNIO PAI; INQUILINO; PEDRO;
GATO
Gotas de água espirram da pia, onde a mãe lava louças. A
água molha o tecido da blusa da mãe, mostrando na
transparência do tecido molhado colado a sua pele, a sua
silueta e a cor da calcinha que aparece sutilmente sob a
transparÊncia do tecido molhado. Pequenos detalhes que são
observadas atentamente pelo inquilino. Dois homens estão
continua
continuando (2) 6.
sentados a mesa, frente a pia, o inquilino, bem a vontade
de camisa de manga curta aberta no peito, bermuda e
sandália e o Antônio, já vestido todo de branco para ir
trabalhar, termina de comer e rapidamente se levanta...
ANTÔNIO PAI
Com licença! Maria vou rápido
arrumar as minhas coisas que já
estou atrasado pra ir ao
consultório.
Levanta-se e sai rapidamente da cozinha, Pedro brinca no
chão da cozinha com o gato. A mãe de Pedro começa a tirar
os objetos da mesa. O inquilino aproveita a proximidade da
mão da mãe de Pedro e a ausência de Antonio e pousa sua
mão sobre a mão dela, que retira a mão bruscamente e se
afasta irritada em direção a pia. O menino assiste a cena.
O pai retorna a cozinha, já pronto para ir trabalhar,
vestido com roupa branca e agora de óculos e carregando a
maleta de couro na mão, dá um beijo na mãe, afaga a cabeça
de Pedro, faz um aceno ao inquilino e sai.
ANTÔNIO PAI
Tchau!
PEDRO
tchau!
MÃE
tchau!
O inquilino termina de comer, dá um arroto, se levanta e
vai com seu prato em uma das mãos, em direção a pia, onde
encontra a mulher lavando a louça, com a mão livre se
prepara para apalpar uma de suas nádegas, quando Pedro
corre e se agarra a saia da mãe,ficando entre a sua mãe e
a mão do inquilino, encarando desafiadoramente o homem,
continua
continuando (3) 7.
que se recompõe e deposita grosseiramente o prato sobre a
pia, ao lado da mãe. Ato continuo a mãe se afasta dele
discretamente, continuando o que estava a fazer, levando o
que estava lavado para o lado oposto, onde estava o
inquilino. O homem sorri cinicamente olhando em direção a
mãe de Pedro, faz um afago na cabeça do menino e se afasta
em direção ao corredor. A mãe frente ao armário, olha e
faz uma careta por sobre os ombros para o homem que se
afasta, em direção ao corredor e nada vê.
8 INT. ARMARINHO - DIA
PEDRO; AMIGO DE PEDRO; COMERCIANTE
Punhal de brinquedo, de plástico colorido, na mão de uma
criança.Em um movimento brusco o punhal é enterrado no
abdomem de Pedro. Outro punhal vem em posição vertical e
se enterra na cabeça do amigo. Os dois amigos riem e
observam, empurrando com o dedo a ponta do punhal, na
tentativa de entender o mecanismo do brinquedo, eles estão
em uma loja de presentes e miudezas, um armarinho, que
vendia toda qualidade de vasilhas e utensílios de
plástico e entulhada com brinquedos, flores e vasilhas de
plástico colorido. Amigo de Pedro mostra o punhal para o
vendedor e pergunta:
AMIGO DE PEDRO
Quanto é?
COMERCIANTE É um cruzeiro cada.
Os meninos, cada um com um punhal na mão, procuram nos
bolsos o dinheiro e pagam com moedas o comerciante.
continua
continuando (2) 8.
PEDRO Agora vamos fazer justiça e
proteger os fracos e oprimidos!
O vendedor sorri e dá a volta ao balcão, caminhando em
direção aos meninos, coloca as mãos sobre os ombros deles,
levando-os em direção a porta de saída.
COMERCIANTE
Vem que o mundo bem que precisa
de justiceiros assim como vocês.
O que não falta é oprimido. Agora
vão procurar os oprimidos lá na
rua, pra não assustar a
freguesia.
9 EXT. RUA DA VILA - ENTARDECER - DIA
PEDRO; AMIGO DE PEDRO
Os dois amigos caminham pela rua da vila e alternadamente
se golpeiam com os punhais, enquanto emitem gritos de
ataque e frases repetidas dos heróis da tv
10 INT. CASA DO AMIGO - SALA NOITE
PEDRO; MÃE DO AMIGO; PAI DO AMIGO;
AMIGO DE PEDRO;
Chuvisco de tela de tv, três adultos sentados em um sofá
em uma sala olham para outro homem que mexe na televisão.
A câmera passeia pelo rosto de uma senhora de idade e um
senhor de mais idade ainda. Uma mulher mais nova com lenço
e bobs de plástico com cores berrantes na cabeça, mistura
com uma colher de pau, uma massa , em uma vasilha de
continua
continuando (2) 9.
plástico, ao seu lado as duas crianças,
Pedro e seu amigo, morador da casa, todos olham em direção
a tv.
MÃE DO AMIGO
Caramba, Otávio!vê se sintoniza
logo essa TV, que o Zorro já deve
estar começando e as crianças
estão impacientes.
Um homem de meia idade, está abaixado, mexendo nos botões
de uma tv, que está embutida em um vistoso móvel de
madeira escura, com as portas centrais abertas, a imagem é
preto e branco, entretanto, a tela é coberta por um papel
celofane multicolorido de azul, vermelho e verde,
proporcionando um estranho falso colorido as cenas.
PAI DO AMIGO
Que droga, quem foi que mexeu
nesse botão da antena, agora não
estou conseguindo sintonizar...
Finalmente a imagem aparece.
11 INT. SACADA DO ZORRO - CENA DA TV
Cena de ação de um seriado capa e espada, em estúdio, como
que transmitida ao vivo. O personagem, o Zorro, entra por
uma porta,de espada em riste, em uma pequena sacada, que
está no topo de uma também, pequena escadaria. Olha para
um lado e outro rapidamente procurando algo e avista o
bandido que foge em direção a câmera.
ZORRO
Não adianta tentar fugir seu
(MAIS...)
continua
continuando (2) 10.
ZORRO (...cont.) canalha. Vais pagar pelos seus
erros e será na ponta da minha
espada.
Ele joga a capa para trás e apoiando uma mão no corrimão
da escada e jogando as pernas, salta por sobre, com a
espada em punho, abrindo sua capa negra, que toma toda a
tela.
FUSÃO PARA:
12 EXT. RUA DA VILA - DIA
AMIGO DE PEDRO; PEDRO
Capa preta de fantasia de Zorro veste o amigo de Pedro,
que está empunhando um punhal de plástico. Segura Pedro
deitado no chão, sob o joelho
AMIGO DE PEDRO
Não adianta tentar fugir, seu
canalha. Chegou a hora ...
Quando este vai cravar o "punhal" Pedro se vira e o amigo
perde o equilíbrio e cai, rolando no chão
AMIGO DE PEDRO (...cont.)
Puta que te pariu!
Esbraveja o menino que não esperava a saída rápida de
Pedro e machucou o joelho e ralou o nariz, no chão de
paralelepipedos. Ele olha com expressão de dor para o
machucado do joelho. O punhal de plástico está espatifado
no chão com a lâmina quebrada, e a mola saltada expondo
todo o mecanismo. Sua expressão é de ódio, olha para
Pedro que está em pé rindo, olha para o chão e vê uma
pedra solta, apanha e corre para cima de Pedro, em atitude
continua
continuando (2) 11.
agressiva, com a pedra na mão. Pedro corre em direção a
sua casa que estava próxima e entra sem olhar para trás.
13 INT CASA DE PEDRO - DIA
PEDRO
Entra em sua casa esbaforido e fecha a porta, assustado.
Sua mãe aparece na porta do quarto e olha para ele.
MÃE
O que é que, está acontecendo...
No mesmo momento um vidro da janela da sala é estilhaçado
por uma pedra, que cai no chão da sala. Pelo buraco aberto
pela pedra no vidro a mãe de Pedro observa a rua.
14 EXT. RUA DA VILA - DIA
AMIGO DE PEDRO; PEDRO
Da rua o menino vê, pelo buraco do vidro quebrado, aberto
pela pedra, o rosto da mãe e de Pedro, que olham para ele
ainda da tempo de ver o menino correndo com a capa preta,
dobrando a esquina.
MÃE Seu moleque sem vergonha, vou
falar com sua mãe.
Grita a mãe de Pedro através do buraco quebrado pela pedra.
15 INT. QUARTO DA CASA DO MENINO - DIA
MÃE Seu safado, eu já não te falei
que não quero você andando com
moleque de rua.Que que você fez
para êle?
Fala a mãe, interrogando Pedro, enquanto segura o menino
continua
continuando (2) 12.
por um braço e empunha uma sandália havaiana na outra,
dando chineladas nas nádegas.
PEDRO
Ele não é moleque de rua não, é
meu amigo e mora lá no fim da
vila, ai, ai!! e eu não fiz nada
mãe, foi êle que caiu sozinho, eu
não fiz nada, a gente estava
brincando, juro...Ai!!ai!!
Mãos da mãe com a sandália havaiana sobem e descem na
tela, ela está dando uma surra no menino, que sai chorando
do quarto.
CORTA PARA:
16 EXT. CAMPO DE PELADA - DIA
JOGADORES E TORCIDA; PEDRO
Pés calçando chuteiras, arrancam a grama já rala do campo
de pelada com um chute na bola e levantam poeira, a bola
rola. Os jogadores estão uniformizados, muitas pessoas
estão ao redor do campo. Após mais um drible mais um gol,
a torcida vibra. Um pipoqueiro faz pipoca, enquanto fuma
um cigarro e ao mesmo tempo contempla o jogo. Pedro
senta- se em uma pedra próximo ao pipoqueiro, dividindo
seu olhar entre o jogo, as pipocas e o pipoqueiro fumante,
que atira a guimba do cigarro no chão. A fumaça sai do
meio da grama, os olhos do menino brilham. Ele pega
o cigarro e leva aos lábios. Dá um trago desconfiado e
tosse, tosse muito, até ficar avermelhado e as lágrimas
correrem pelo seu rosto.
continua
continuando (2) 13.
PIPOQUEIRO
Tá pensando o que moleque?
Cigarro é pra homem!
17 INT.COZINHA - DIA
PEDRO; GATO
Pelo do gato sendo acariciado por mão de criança, imagem
desfocada vai gradativamente ficando nítida com a imagem
de Pedro acariciando e brincando com o gato sob a mesa, ao
fundo a mãe de costas corta legumes preparando a comida,
alternando entre a pia e o fogão. O gato se encaminha para
a porta ao fundo, que leva ao quintal e está entreaberta.
Pedro segue o gato e o apanha nos braços já saindo para o
quintal.
18 EXT. QUINTAL - DIA
PEDRO; GATO; POMBOS; ANTÔNIO PAI; MÃE
Pedro sai ao quintal com o gato no colo, o dia está lindo,
de um azul intenso e seu olhar acompanha os pombos voando
brancos voando pelo céu, quando sua atenção se volta para
um vulto diferente, um balão estrela, enorme e
multicolorido, que gira lentamente no céu sob o céu azul,
e em lento movimento de queda vai aumentando de tamanho
vindo em direção ao quintal onde se encontra Pedro. Duas
mãos aparecem sobre o muro, nos fundos do quintal e logo
em seguida num rápido pulo, surge o rosto de um rapaz, que
some, para logo em seguida num impulso maior aparecer de
corpo inteiro, sentando em cima do muro. Olha para o balão
e fala para alguém que está além muro.
continua
continuando (2) 14.
RAPAZ 1
Ele vai cair aqui, sobe logo Zé!
O burburinho das vozes aumentam de volume e começam a
surgir, cabeças "pulantes" de outros rapazes que com
impulso maior sentam sobre o muro, agora já são vários
sobre o muro
RAPAZ 2
Traz logo o bambu!
O quintal se transformou em um mar de corpos de rapazes,
eram uns dez rapazes agitados, que haviam surgido por cima
do muro e invadiram o quintal, agora coroados por um
emaranhado de bambus, se empurravam na espera da queda do
balão, alguns sem camisa, suados e esbravejando, tentando
se posicionar no melhor local.
RAPAZ 3
Cara ele é muito grande!! Sai que
é meu!!
RAPAZ 4
Não rasga !! Não rasga !! Sai daí
Jair !!
RAPAZ 2
Se rasgar vou dar porrada!
Dois rapazes irrompem em direção ao balão, do interior
da casa passando rapidamente ao lado de Pedro, que
precisou sair da frente para dar espaço a ação. O olhar
assustado do menino contempla toda essa cena e voa para o
alto, para o balão estrela, que cai, quando seus olhos
cruzam com os rostos sorrindo, do pai, que olha para a
ação no quintal e da mãe, que olha para ele de nos olhos,
continua
continuando (3) 15.
lhe dá a mão e o ampara. Quando ele olha novamente para o
quintal, os rapazes estão ainda mais agitados e aos
gritos, alguns estão em pé sobre o muro e agitam os braços
e gritam, um frenesi crescente que atinge o seu auge na
queda do balão, já meio murcho.
RAPAZ 1
Sai que é meu!
RAPAZ 4
Não rasga! Não rasga!
RAPAZ 3
Tá na mão! é meu!
RAPAZ 2
Pega na boca da bucha!! Tá fria!
RAPAZ 1
Caracoles! Essa vara aí!
O balão é lindo, imenso e multicolorido. Cai sobre todos,
cobrindo o pequeno quintal, como uma grande colcha de
retalhos, com várias cores. Uma vara de bambu surge do
papel e atravessando o balão faz o primeiro rasgo, por
onde escapa grossa camada de fuligem, logo coberta por
mãos que tentam inutilmente dobrar o balão. A cena se
transforma numa orgia de fumaça, fuligem, corpos,
bambus, pombos e muitos papeis coloridos, picados. O balão
é completamente destruído.
FUSÃO PARA 19 EXT. RUA DA VILA - DIA
PEDRO; PEDRO ADULTO; FORMIGA
Pedro caminha pela rua pensativo, seu olhar é
continua
continuando (2) 16.
ligeiramente triste, anda em direção a esquina. Lá
chegando, senta no meio fio e seu olhar percorre o chão
de paralelepipedos a seus pés, quando uma formiga chama a
sua atenção carregando uma grande folha. O inseto entra em
uma rachadura no meio fio da calçada, sumindo do campo
visual do menino. Ele se abaixa e olha para a rachadura,
já não vê o inseto mas, no interior da rachadura encontra
uma pérola, que brilha refletindo o céu. Seu olhar brilha
de excitação. Ele a apanha com a ponta dos dedos, coloca
sobre a palma da mão. A mão que recebe a pérola já não é a
mão de um menino, mas a de um velho, com as rugas que o
tempo traz. Ele leva a pérola próxima ao rosto para
observa-la melhor. É Pedro já velho, que observa de óculos
atentamente a perola e seu olhar brilha intensamente como
a pérola. 
FADE OUT 
FIM



 EU SOU ELE” 

 Roteiro de Fernando A Medeiros

 FADE IN : 

 EXT. PRAIA - NOITE 

Zé, um rapaz jovem, robusto, com pele clara, cabelos loiros 

curtos e traços abrutalhados, está agachado na beira do mar,  

lavando o rosto e os braços. Sua roupa e seu corpo estão  

ensangüentados. A lua reflete sua luz na água. Um policial  

se aproxima com uma arma na mão.    POLICIAL  Quieto!! 

Zé continua se lavando e esboça um sorriso, falando:    ZÉ  Eu sou ele ! 

CLOSE – LUA REFLETIDA 

na água, que está na mão em concha, de ZÉ. 

FUSÃO PARA: 

EXT. CASA EM CONSTRUÇÃO - DIA  

CLOSE – CROMADOS 

de carro, em movimento. Cabelos loiros ao vento. 

VOLTA À CENA 

Joca, jovem artista plástico, passa em direção à sua casa  

de bug, com uma bela mulher loira. O som do carro alto,  

clima de descontração. Subida de uma rua de condomínio  






classe média, com natureza exuberante. Lindo dia azul. O  

carro passa e a CÂMERA ACOMPANHA A CENA, até enquadrar Zé,  

que empurra um carrinho de obra, ao lado da construção. Zé  

olha pôr cima do ombro em direção ao carro que passa, seu  

olhar é de desejo. Carro passa e levanta folhas e poeira do  

chão. Zé para, pega uma pá e começa a carregar o carrinho de  

mão. 

CLOSE - LÂMINA 

da pá penetrando na areia. 

FUSÃO 

EXT. JARDIM DA CASA DE JOCA - DIA  

Carro ATRAVESSA O QUADRO na mesma direção do movimento da  

pá. Joca chega em sua casa, bonito jardim, casa rústica,  

tipo chalé, com varanda, piscina e vista do mar. 

CORTA 

CLOSE – MULHER LOIRA 

desce do carro, ela está de short, pernas torneadas descendo  

do carro. 

VOLTA À CENA 

cabelo sobre os ombros nus, ela está de bustiê, clima  

sensual. Joca envolve a sua cintura com a mão. 

CORTA 

INSERT – REDE NA VARANDA 

da casa de Joca balança e cachorro de porte médio, pula de  

dentro, em sinal de alerta. 






VOLTA À CENA 

Eles chegam a entrada da casa, abrem a porta e entram. 

   CORTA 

INT. CASA DE ZÉ - ENTARDECER 

Zé abre a porta e entra, suado, sujo. Sua mãe, senhora  

mulata, rosto marcado pela vida, magra e de pequena  

estatura, fecha e tranca a porta. Ela está de avental, saia  

rodada bem surrada, lenço na cabeça e colher de pau na mão.  

A casa é de alvenaria, tijolos a mostra, teto de laje, 

pequenas janelas basculantes iluminam o ambiente, soturno e  

esfumaçado, um aparelho de rádio, está sintonizado em  

estação AM, programa popular, pela janela avista-se  a 

paisagem da favela, outras casas de laje, antenas, fios 

emaranhados e roupas penduradas em arames.    MÃE 

            Veio de mãos abanando de novo? Não sei prá                                 que você trabalha, esse seu patrão não te               paga não? ou ficou vagabundeando por aí ?     ZÉ 

Mãe, ele disse que só a próxima semana... 

 MÃE 

 Você é um imprestável igual seu pai ! Maldita a  

            hora que tu nasceu.  

Pai moribundo, com poucos cabelos loiros e rosto marcado por  

rugas e feições embrutecidas, está deitado no sofá em  






PRIMEIRO PLANO, vestido de pijamas, sua aparência é doen- 

tia. Zé, caminha pela casa em direção a  uma janela  

basculante, mãe, ao fundo, cozinha. As panelas são  

de alumínio, amassadas e queimadas pelo velho fogão.  

CLOSE - NA COMIDA 

que está sendo feita, panela preta, amassada, colher de pau 

mexe a mistura de "milharina" e pés de galinha.   VOLTA  À CENA  

Zé olha através das folhas do basculante, sua mãe continua  

a praguejar. O som da voz vai ficando distante e sendo 

substituído pelo burburinho externo, vozes, crianças, mães  

chamando seus filhos, passarinhos, rádios e tvs, etc.. 

EXT. FAVELA - ENTARDECER  

POV DE ZÉ 

que olha pela janela à paisagem: poste todo enrolado com  

fios elétricos, pipas, tênis, tudo enrolado nos fios.  

“Visual” de Zé continua seu passeio em direção ao céu, pipas  

no alto. Pipa mais alta, mergulha em direção a outra. Linhas  

se cruzando.  

CLOSE – LINHAS 

brilham quando serol reflete o sol. Linha sendo cortada.   VOLTA À CENA 

Pipa voa e vai caindo até desaparecer por trás das casas.     INT. CASA DE ZÉ - ENTARDECER  

Pai em PRIMEIRO  PLANO, vomita sobre o próprio corpo,  






MUDANÇA DE FOCO para Zé que vira-se para olhar.  

CLOSE - NA EXPRESSÃO 

de desdém da mãe, que também olha para o moribundo e retorna 

a atenção, à comida. Ela começa a servir os pratos.  

Eles são de plástico, com algumas queimaduras nas bordas ou  

embaixo. Colheradas vigorosas, penetram a mistura. 

FUSÃO 

INT. CASA DE JOCA - ENTARDECER 

Mão de Joca, no mesmo angulo movimento da colher, acaricia 

seio de mulher, cena de amor. Detalhes do contraste da cor  

da pele morena com a pele clara. Câmera percorre o corpo dos  

dois, que se movimentam em ritmo lento e sensual, como se 

estivessem fazendo amor.  

PLANO CONTÍNUO  

saindo da cama, onde os dois se encontram, em direção a  

janela do quarto. O céu está laranja, após o por do sol no  

mar, visual deslumbrante. 

FUSÃO 

EXT. RUA FAVELA / BIROSCA - ENTARDECER 

Brilhos, com as cores do pôr de sol, nos enfeites da  

fantasia de bate bola. 

CLOSE  - CACHORRO VIRA LATA  

dorme na calçada, ao lado de garrafas de cerveja, bola do  

bate bola, bate no chão, com violência, próximo ao seu  

focinho, o cachorro corre assustado. 






VOLTA À CENA 

Crianças observam o grupo de bate bolas, suas danças e  

brincadeiras. Eles estão em frente a uma birosca de madeira, 

pintada em cores berrantes. Um dos bate bola, conversa com  

duas garotas, que estão vestidas de corpete e short colante.  

Um dos bate bolas é Zé, que está com a máscara levantada,  

mostrando o rosto, ele olha ao redor aturdido e volta sua  

atenção para as garotas, olhando abobalhado.  

POV DE ZÉ 

CLOSE - NAS CURVAS  

A) dos seios da garota, desenhados na blusa. 

B) nas bundas. 

C) nos rostos.  

 GAROTA 1  

 Onde vocês vão zoar hoje ?    BATE BOLA 1 

 Vamos lá, pro lado da Barra.    GAROTA 

 Nós podemos ir com você ?    BATE BOLA 1 

 Qualé ? Só vai homem ! 

Garota aponta em direção a Zé que está em PRIMEIRO PLANO.  

 GAROTA 1 

Você prefere sair sozinho com esses babacas ?  

Tem até retardado ! 

 BATE BOLA 1 






Ihhh...qualé ? O Zé é maluco mas é maneiro. A  

rapaziada é sangue bom, é tudo irmão! 

 GAROTA 1  

Você vai acabar é maluco que nem ele, é isso aí! 

Té mais!! 

Zé escuta, a distância. As garotas caminham em sua direção e  

passam ao seu lado. 

CLOSE – Zé 

A) olha com o canto do olho,  inibido. 

B) as garotas  viram o rosto, em desprezo. 

VOLTA À CENA 

Seqüência de planos de bate bolas dançando, pulando e  

batendo suas bolas em excitação crescente. Explorar o  

grafismo das roupas. 

FUSÃO 

EXT. CASA DE JOCA / PISCINA - NOITE  

CLOSE – BIKINI 

cai na beira da piscina, ao lado de pé feminino. 

VOLTA À CENA 

Corpo nu de mulher morena, corta o ar em mergulho, IMAGEM  

SUBMARINA do corpo cortando a água, Joca também mergulha na  

piscina. IMAGEM SUBMARINA, mostra a troca de carícias.  

Bolhas de ar resultantes dos movimentos na água ocupam a  

tela. 






FUSÀO 

EXT. PONTO DE ÔNIBUS - NOITE  

Miçangas azuis das roupas dos bate bolas , descortinam  

faróis de ônibus chegando. 

CLOSE – ESTRIBO DE ÔNIBUS 

bola “pipoca” no chão com força, pés dos bate bolas subindo no ônibus em disparada. 

VOLTA À CENA 

Frenesi na entrada do grupo, que se espreme para entrar no 

ônibus, em grande algazarra. ZOOM IN até as roupas ocuparem  

todo o quadro e desfocar.   

   FUSÃO 

INT. CASA DE JOCA / SALA  

CLOSE - RESPINGOS 

de tinta, em pintura impressionista, pincel entra em quadro  

fazendo uma faixa contínua de tom vermelho sangue. 

VOLTA À CENA 

Sala espaçosa, decorada com pouca mobília e decoração  

artística. Joca está pintando um quadro. Imagem “clean”, de  

paz, tranquilidade e concentração.  

CORTA 

EXT. ÔNIBUS - NOITE  

SÉRIE DE PLANOS  

A) Passageiros riem. 

B) Outros se sentem incomodados. 

C) Mãe protege seu filho. 






D) Homem puxa para si, saco de linhagem preta, com fiada de 

caranguejos vivos. 

  CLOSE DOS CARANGUEJOS 

que esperneiam, tentando sair do saco. 

VOLTA À CENA 
  
O ônibus está cheio, com pessoas em pé, que se espremem  

frente a bagunça dos bate bolas. Duas garotas em pé com  

colares de plástico e short são cercadas por alguns bate  

bolas, eles se encostam, apertando as garotas e roçando os  

corpos. Uma das garotas, faz cara de brava e cutuca barriga  

do bate bola com o cotovelo. Frenesi aumenta, as luzes da  

rua surgem conforme o ônibus se desloca pela estrada cheia  

de curvas. As pessoas estão ansiosas. Um dos bate bola, bate  

com o pau que segura a bola na luminária do ônibus,  

espatifando-a.  

CLOSE – PAU 

quebrando a lâmpada. Várias lâmpadas são quebradas. 

VOLTA À CENA 

O frenesi chegou ao seu auge. As pessoas apavoradas, gritam,  

os homens reclamam, as crianças choram. A bagunça no  

interior do ônibus é grande. As luzes dos postes da estrada  

refletem nos brilhos e nos corpos suados e definem os  

contornos dos passageiros e bate bolas, em piscadas de luz,  

conforme o ônibus em movimento passa velozmente pelos  

postes. Janelas começam a ser quebradas, pessoas entram em 




10 

pânico. Ônibus sai da estrada e para próximo a um boteco.  

Bate bolas saem do ônibus, pela porta da frente e através  

das janelas quebradas, fazendo grande alvoroço e ocupando  

toda a tela. 

  FUSÃO 

EXT. JARDIM CASA DE JOCA - NOITE  

Casal, Joca e mulher morena saem da casa e se dirigem  

conversando ao carro. Entram no carro, conversando e  

trocando sorrisos. Joca acende um cigarro e passa para ela,  

arrancando com o carro em direção a saída. 

CORTA 

EXT. RUA DA BARRA / BOTEQUIM - NOITE  

Carro de Joca passa em frente ao botequim onde o grupo de  

bate bolas faz bagunça. Zé está eufórico batendo sua bola e  

pulando como um louco. Bola bate no chão e carro de Joca   

passa ao fundo.  

POV DE ZÉ 

Carro de Joca passa próximo a Zé e se afasta. 

VOLTA À CENA 

FUSÀO 

EXT. CASA EM CONSTRUÇÃO - DIA  

CLOSE – SEU TAMOIO 

dono da obra, esbraveja( sotaque paulista ).  

 TAMOIO  Pôrra meu, você tá muito mole! 





11 
 VOLTA À CENA 

Seu Tamoio é um sujeito baixo, ligeiramente gordo,  

barrigudo, morador da zona sul do Rio. É um sujeito 

matreiro. Sempre diz que está sem dinheiro, mas está fazendo  

uma casa de praia requintada, veste-se bem e possui um carro  

esportivo.  

PLANO CONTÍNUO EM TRAVELING  

Ele está em pé, sobre um monte de terra ( para aumentar a  

sua altura ), próximo ao carro, com as mãos na cintura, em  

atitude prepotente, esbravejando com o PEDREIRO. Zé com saco  

de cimento nas costas cruza a cena, olhando para o chão.  

Tamoio,  embora olhe na direção da movimentação inicial de  

Zé, dirige a sua bronca ao pedreiro. 

 TAMOIO 

Você parece uma puta lesma, meu! Assim eu não  

vou poder vir passar o carnaval aqui. Puta que  

te pariu, , não sei porque que eu te agüento,  

quero te dar uma força, mas você não reconhece  

o meu esforço, uma vez por semana tenho que  

vir de Ipanema até aqui prá ver como tá a obra  

e chego aqui...porra nenhuma, você não fez  

nada. 

CLOSE 

DINHO, o pedreiro, enfia a lâmina da colher de pedreiro na  

massa de cimento. 





12 
VOLTA À CENA 

Dinho embossando a casa, fala calmamente, fumando um  

cigarro, pendurado no canto da boca. Dinho é um camarada  

tranqüilo e trabalhador, no ritmo da beira de praia, é  

claro. Rapaz simples, semi analfabeto.    DINHO 

Poxa, seu Tamoio, eu e o Zé tamo trabalhando  

direto, aqui nesta empleita. O senhor nem tem do  

que reclamar. 

  TAMOIO 

O que? Como é que é? Que trabalhando porra  

nenhuma, cês tão é mamando o meu dinheiro. 

Zé passa carregando mais um saco de cimento, olhar submisso.      DINHO    O sr. vai pagar hoje ? 

  TAMOIO     Só uma parte...  

Tamoio pega o telefone celular e começa a discar, como se  

estivesse a encerrar a conversa e ter mais o que fazer.  

... prá vocês... irem ...se segurando, a coisa 

tá preta.      DINHO 

 Mas seu Tamoio, eu tenho família e também tenho  

 que pagar o Zé que não paguei a semana passada. 

 TAMOIO 





13 
Alô...Alô...Merda, a bateria está acabando. Tô  

dizendo que a coisa tá preta. Com essa grana que  

vou te dar hoje você paga uma parte pro  

maluquinho... (cont.) 

              Tamoio tenta a ligação, novamente. 

CLOSE – ROSTO 

de Zé, mo meio da poeira do cimento, ele olha para o lado  

com expressão amargurada.  
  
VOLTA À CENA 

 TAMOIO 

( cont. )...e fica tudo certo, segunda feira  

venho aqui e se você terminar te pago tudo, tá  

bom ? Alô...Alô... 

Zé descarrega saco de cimento, em um monte de areia  

preparado para fazer a massa. Ao fundo Tamoio ainda tentando  

fazer a ligação, se dirige ao seu carro, entra e arranca, 

DESCORTINANDO a obra, o pedreiro e Zé que passa na frente da 

cena, carregando mais um saco de cimento. 

CORTA 

EXT. CASA DE JOCA / JARDIM - DIA / ENTARDECER 

Zé aparece por trás de uma árvore, se esgueirando pelo mato. 

POV DE ZÉ 

Joca está pintando na varanda, o carro está parado no  

quintal e está mais próximo. Um vulto na janela chama a  

atenção, é uma mulher loira que esta passando.  





14 
VOLTA À CENA   Zé se esconde para não ser visto. Caminha em volta da casa.  

CLOSE - CACHORRO  

levanta as orelhas em estado de alerta. 

VOLTA À CENA 

Zé olha uma árvore e conclui que pode dar acesso à casa,  

entrando pelo andar superior, no quarto de Joca. Vozes de  

Joca e da mulher chegam até Zé, ele se esconde. A porta  

principal da casa, abre-se e o casal sai para o jardim a  

conversar. 

 LOIRA 

Poxa, você não vai me levar lá embaixo?      JOCA 

Não vou não, princesa. Estou muito ocupado   

terminando um quadro, que tenho que entregar  

ainda hoje.Vou te levar até o portão, tá legal?    LOIRA   Fazer o quê, brotinho? 

Fala a garota com certo desâimo. Joca dá um beijo e abre um  

sorriso. 

  JOCA  É bom para engrossar as pernas! 


Ela dá um beijo em Joca e se afasta. 

Zé observa toda a cena de seu esconderijo. Joca volta para a  

casa e fecha a porta. Zé sai do meio do mato e se  

esgueirando, segue a mulher pela estrada. 




15 

CORTA 

EXT. ESTRADA DO CONDOMÍNIO - ENTARDECER 

Loira caminha feliz, na estrada dá uma última olhada para  Joca. Zé a segue ao fundo. 

CLOSE – OLHAR 

de Zé caminhando. 

POV DE Zé   rebolado da loira ao caminhar. 

VOLTA À CENA 

Zé cai em um buraco no meio do mato, fazendo barulho Ela  

para olha em volta e não vê nada. A cabeça de Zé reaparece  

por trás de uma moita.  

EXT. PONTO DE ÔNIBUS – DIA 

Ela chega ao ponto de ônibus, silhueta de Zé, que a observa  

em PRIMEIRO PLANO ocupa o quadro.  

FUSÃO 

INT. CASA DE JOCA / VARANDA - NOITE 

Pincelada escura na tela. Joca está pintando um quadro na  

varanda. Para de pintar, guarda os pincéis. Caminha para o  

interior da casa e apaga a luz. Silhueta de cachorro pula  

para dentro da rede, na varanda. 

CORTA 

EXT. CASA DE JOCA / JARDIM - NOITE 

Moita de capim é afastada e surge o rosto de Zé. 

POV DE ZÉ 





16 
luzes da casa se apagando. 

INT. CASA DE JOCA / QUARTO - NOITE 

Luz se acende, Joca entra no quarto, tira a cueca, fica nu.  

A porta do quarto que dá para a varanda está aberta. Ele  

deita, se enrolando no lençol, deixando apenas o rosto a  

mostra, como de costume. Apaga a luz. 
CORTA 

EXT. CASA DE JOCA / JARDIM - NOITE 

Lenta PANORÂMICA da casa e do jardim, as luzes estão  

apagadas, ruído de grilos. Sombra de Zé é projetada na 

parede da casa, ao lado da árvore que dá acesso ao andar  

superior. 

CLOSE – MÃO 

Apalpa a faca que está na cintura e inicia a escalada da  

árvore. 

VOLTA À CENA 

Passa pela varanda ( escalando a árvore ) onde está a rede  

com o cachorro dormindo dentro. 


INT. CASA DE JOCA / QUARTO - NOITE 

Varanda do quarto de Joca, árvore balança. Surge Zé que  

acabou de escalar a árvore. Em um gesto felino pula para  

dentro da varanda. Joca dorme. Na parede do quarto aparece  

a silhueta de Zé que entra no quarto, pega a faca na  

cintura. Anda ao lado da cama de Joca, de um lado para  

outro, ansioso, observando se o mesmo dorme. Já mais  





17 
tranquilo após confirmar que Joca dorme, desce a escada em  

direção ao... 

CLOSED 

acende um fósforo para iluminar o ambiente. O closed é  

grande, as roupas estão penduradas em uma arara. Uma  

sapateira, um cabideiro e uma cômoda com gavetas, compõem o 

ambiente despojado. Ele procura sobre a cômoda e encontra  

uma carteira com documentos e dinheiro. Zé apanha o  

dinheiro, o fósforo queima o seu dedo e se apaga. Ele acende  

outro fósforo. Volta a mexer nos objetos que estão sobre a  

cômoda e encontra uma pequena agenda de telefones. Aproxima  

o fósforo do objeto, iluminando-o para ver do que se trata.  

Esboça um sorriso e apaga o fósforo. 

QUARTO 

Zé passa por Joca que continua a dormir e sai pela varanda  

em direção a árvore. A árvore balança com o peso de Zé.  

Passa ao lado da varanda onde se encontra o cachorro  

dormindo, dentro da rede. Silhueta de Zé descendo pela  

árvore e passando pela rede, onde o cachorro dorme. 

CORTA 

INT. CASA DE ZÉ - NOITE 

Zé, em sua cama, com um abajur improvisado, observa a agenda  

de telefones, roubada de Joca.  

CLOSE 

A) Nomes femininos, anotados na agenda 





18 
B) Expressões de Zé. 

 VOLTA À CENA 

Movimentos sob a coberta sugerem que Zé está se masturbando. 

CLOSE  

A) Expressão de prazer.   B) Agenda caindo no chão. 

FUSÃO 

INT. CASA DE JOCA - DIA 

O Sol penetra no quarto iluminando o rosto de Joca, que 

ainda dorme. Ele abre os olhos, se espreguiça, levanta nu da  

cama e desce para o ... 

CLOSED, passando pela cômoda e se dirigindo ao ... 

BANHEIRO. Toma banho, volta ao ... 

CLOSED onde se enxugando. Veste a calça, abre a gaveta pega  

o relógio e a chave do carro. Procura pela agenda e pelo  

dinheiro. Abre portas e gavetas da cômoda. Procura nos  

bolsos. Sobe ao... 

QUARTO e revira tudo. 

 JOCA 

Merda, onde foi que eu enfiei essa agenda ? E 

a grana, será que perdi ? 

Olha no relógio de novo, vê que está atrasado. Desce para o... 

CLOSED 

Veste a camisa, pega a chave do carro e sai do closed. 

EXT. CASA DE JOCA / JARDIM - DIA 




19 

Joca sai rapidamente em direção ao carro, está carregado de   quadros. Acomoda os quadros no carro, embarca rapidamente e  

arranca com velocidade. 

EXT. ESTRADA DO CONDOMÍNIO - DIA 

Joca dirigindo seu carro rapidamente. Olha para o retrovisor  

que reflete seus olhos.  

  FUSÃO 


INT. CASA DE JOCA - noite 

FLASHBACK – Joca relembra cada ação da sua chegada em casa 

na noite anterior. TRATAMENTO DIFERENCIADO da imagem: Joca 

acende a luz, entra no closed, tira a camisa e joga sobre o 

cabideiro, enfia a mão no bolso da calça e tira o dinheiro e 

a agenda de telefones. Deposita tudo sobre a cômoda, o 

dinheiro, a agenda e a chave do carro. 

CORTA 

EXT. ESTRADA DA CASA DE JOCA - DIA  

CLOSE - VOLANTE  

Joca esmurra  

VOLTA À CENA 

Joca dirigindo o carro, esmurra a direção repetidamente 

Reflexo da imagem de Joca, puto, no espelho retrovisor. 

 JOCA  

 Roubaram a minha grana... 

CLOSE – MÃO 





20 
passa a marcha e seu pé pisa o acelerador. 

VOLTA  À   CENA 

Carro de Joca passa em alta velocidade pela construção.  

Zé está fazendo massa. Olha em direção ao carro, pelo canto  

do olho. 

              CORTA 

INT. CASA DA ASTRÓLOGA - DIA  

CLOSE - MAPA ASTRAL   Sobre uma mesa, livros de astrologia e vários papeis, sendo  

um deles um mapa astral.  

VOLTA À CENA 

A casa é espaçosa e bem decorada, a astróloga é jovem e  

bonita, tem uma personalidade carismática, seus olhos são  

brilhantes e envolventes, sua voz é  calma, porem firme.  

Eles estão em uma mesa redonda, na sala.       ASTRÓLOGA  

Sente-se aqui ! Olha só que interessante! Tem  

uma conjunção de Júpiter com Saturno, que está  

muito forte nesse período do seu trânsito.  

Você, por um acaso, vai se mudar?  

Joca chega até a mesa, senta-se e responde surpreendido e 

sorrindo. 

 JOCA Espera aí ! Vamos devagar. Primeiro, eu não vou  

me mudar e segundo...não sei o que é trânsito ! 




21 
   ASTRÓLOGA 

Você não pediu, em troca do quadro, prá eu fazer 

"tudo o que você tinha direito"? Pois bem, segui  

as suas orientações. 

 JOCA  

E então? O que, que é, esse tal de trânsito ? Eu  

só conheço mapa astral. 

 ASTRÓLOGA  

Então taí! Foi isso que fiz, o mapa astral é a  

representação do céu, na hora e local que você  

nasceu. Já o trânsito é o céu em movimento, os  

astros se movendo e criando configurações  

diferentes conforme passam por sua cabeça. O  

trânsito, é conhecido popularmente como  

horóscopo. Dá para se fazer o trânsito por  

horas, dias, meses, ou mesmo anos, a pessoa que  

escolhe. Para você, eu fiz apenas para este mês  

e o próximo.  

 JOCA 

Não sei se a gente tem o direito de saber o  

futuro. 

 ASTRÓLOGA  

Nós não sabemos. Sabemos apenas das influências  

que os astros transmitem, de acordo com suas  

posições no céu  e suas combinações em relação  




22 

aos outros astros, aí vem a interpretação, das  

configurações. Na verdade, são tendências, não  

fatos consumados. Você pode usar essas  

informações para viver melhor, sabendo quais os  

aspectos, que lhe são favoráveis, e usufruir  

dessa boa configuração. Ou, se são  

desfavoráveis, evitar as situações que podem  

levar a consumação da previsão. 

 JOCA     Tá bom, então vamos lá ! 

 ASTRÓLOGA 

Como eu estava dizendo tem uma configuração aqui  

no seu mapa que é um indício de mudança, você  

não está mesmo pensando em mudar-se de casa ? 

 JOCA     Não !      ASTRÓLOGA 

Nem vai reformar sua casa ? Pintar ? Trocar de  

quarto ? 

Joca responde, negativamente, acenando com a cabeça e já 

mostrando irritação, quanto a insistência da astróloga.     JOCA  

Olha só Leí(astróloga), eu estou duro, não vou reformar  

nada, estou sem trabalho, a casa é minha, não  

pago aluguel  e além de tudo me roubaram uma  




23 

grana, daí acho que algo aí nesse trânsito deve  

estar errado.      ASTRÓLOGA 


Puxa, que chato...Sei não...tá muito forte, no  

máximo em uma semana... Mas, vamos pôr partes, 

que história é essa que te roubaram ? 

 JOCA 

Pô, eu deixei a grana em cima da cômoda  quando  

cheguei ontem a noite em casa e hoje sumiu, deve  

ter sido um desses "mui amigos" que a gente abre  

as portas e vapt, lá vem rasteira. 

 ASTRÓLOGA 

É... deixa prá lá, que eu também tenho uma  

história ,  de um dinheiro que sumiu daqui de  

casa, que até hoje estou procurando atrás dos  

móveis. Vamos falar do seu mapa e de você.  

Depois falaremos do trânsito.  

Você nasceu com a Lua no .... 

Os dois continuam a conversar, ZOON OUT, o diálogo vai  

ficando incompreensível.  

CORTA 

EXT. CASA DE JOCA / JARDIM - NOITE 

Faróis de carro iluminam o jardim, Joca chega em casa. Ele  

desce e descarrega as compras. 





24 
CORTA 

INT. CASA DE JOCA / noite 

Joca entra em casa e se dirige à.. 

COZINHA 

descarrega e arruma as compras, se dirige ao...  

CLOSED 

tira a camisa, enfia a mão no bolso, pega o dinheiro e  

documentos, vai coloca-lo sobre a cômoda, mas para a ação,  

indeciso. Opta por esconder o dinheiro sob a escultura que  

está sobre a cômoda. Tira as calças e joga em direção ao  

cabideiro onde já está a camisa e sai apenas de cuecas, em  

direção ao... 

BANHEIRO 

Olha-se no espelho, coloca pasta na escova de dentes e  

inicia a escovação. 

FUSÃO 

INT. CASA DA ASTRÓLOGA - DIA 

FLASHBACK / TRATAMENTO DIFERENCIADO DA IMAGEM  

 ASTRÓLOGA   Você vai se mudar ! 

INT. CASA DE JOCA / BANHEIRO - NOITE 

CLOSE – DENTES 

de Joca sendo escovados, imagem refletida, ZOOM OUT. 

 JOCA  Mudar, hum ! ! !  

Esboça sorriso, com escova de dentes dentro da boca 





25 
Abre a torneira e pega água para bochechar. Bochecha, cospe,  

pega mais água e lava o rosto. Pega a toalha e se enxuga.  

Quando tira a toalha do rosto sua imagem está refletida no  

espelho, a toalha vai descortinando seus olhos que olham  

fixos para o espelho, preocupação. 

 FUSÃO 

INT. CASA DE JOCA / CLOSED - NOITE 

FLASHBACK / IMAGEM DIFERENCIADA 

Mão colocando o dinheiro sobre a cômoda. 

VOLTA À CENA  

Joca sai da frente do espelho. 

 CORTA 

CASA DE JOCA / QUARTO - noite 

Joca cobre-se, de forma a ficar apenas o rosto aparecendo 

Apaga a luz. 

CORTA 

EXT. CASA DE JOCA / JARDIM - noite 

Mão apalpa o cabo da faca na cintura, pés calçados com tênis  

velhos, caminham silenciosamente pisando as folhas. 

CORTA 

INT. CASA DE JOCA / QUARTO - NOITE 

A sombra de um homem, iluminada pela Lua, se sobrepõe a  

sombra das molduras dos vidros da porta entreaberta, do 

quarto aberta projetada na parede. Vulto chega junto a cama  

de Joca, confere que o mesmo está dormindo e desce a escada  





26 
em direção ao ... 

CLOSE - Zé 

acende um fósforo. 

VOLTA À CENA 

Encaminha-se diretamente a cômoda, onde supõe estar o  

dinheiro. Procura e não acha. Encontra a chave do carro.  

Apanha a chave, o fósforo se apaga. 

Acende outro fósforo, olha para o cabideiro onde está a  

camisa e a calça. Revista as roupas e não encontra nada 

Fica possesso, seu olhar é de revolta. Olha em direção ao  

quarto de Joca. 

CORTA 

INT. CASA DE JOCA / SALA - DIA 

IMAGEM DIFERENCIADA, ( sonho de Joca )  

Quadro sendo pintado. No quadro surge um rosto de mulher.   

Joca olha. Mão de mulher corre pelo pincel vermelho, com  

movimento sensual. A mão fica toda manchada de vermelho  

conforme segura o pincel. Apanha o pincel da mão de Joca e  

começa a cutuca-lo no peito e nas costelas, balbuciando  

sensualmente, entre sorrisos.    MULHER DA TELA      Acorda...acorda...acorda... 

CORTA 

INT. CASA DE JOCA / QUARTO - NOITE 

POV DE JOCA 





27 
Vulto ameaçador, fora de foco.   

VOLTA À CENA 

Zé, em pé ao lado da cama, cutuca Joca com uma faca de ponta  

redonda ( faca de manteiga ), a voz da mulher do sonho,  é  

substituída pela de Zé.    ZÉ    Acorda, acorda. Cadê a grana ? Cadê a grana ?   Joca consegue focar o vulto e segura a lamina da faca, ela é  

de ponta redonda e cega. Zé puxa a faca das mãos de Joca com  

violência, que não se corta. Joca ainda está zonzo, por  

acabar de acordar.  Zé está muito nervoso e se afasta um  

pouco da cama, porém continua a ameaçar Joca com a faca.   

 ZÉ 

 Cadê a grana, pôrra ? 

Joca senta na cama rapidamente, passa a mão pelo cabelo. 

 JOCA  

 Qual é cara ? Não tenho grana não...to duro ! 

Zé continua a ameaçar Joca, e repetir a ameaça, ele tem a  

faca em uma das mãos e a chave do carro na outra.    ZÉ 

 Cadê a grana  ? Cadê a grana ?    JOCA 

 Não tenho grana não, to sem trabalho, tô duro. 

Zé mostra a chave do carro e mudando radicalmente o tom da  

fala ,  faz um pedido infantil para Joca. 




28 

 ZÉ  

Pôxa, você com esse carro, vamos, nós dois  

para São Paulo! 

Joca olha surpreso.     JOCA    Ir prá São Paulo ? Tá maluco ? 

Zé fica agitado com a resposta de Joca e volta a ameaça-lo  

com a faca, em seu rosto. 

 ZÉ 

Não me chama de maluco! Não me chama de maluco! 

Joca tenta acalmar o invasor e fala pausadamente. 

 JOCA 

Não posso ir para São Paulo, não tenho dinhe-iro  

e tenho que ficar aqui, para trabalhar e ganhar  

algum para sobreviver. 

Zé, como se não tivesse escutado a explicação de Joca. 

 ZÉ    A gente pega o carro e vai prá São Paulo!      JOCA 

Cara, eu não posso ir agora para São Paulo, eu  

não tenho dinheiro, tenho que ficar e trabalhar,  

se não vou viver do quê  ?    ZÉ 

Eu...eu já vi... você passar de carro com lindas  

mulheres. 




29 

 JOCA Quer dizer, que você veio aqui atrás de mulher ? 

 ZÉ 

Não ! não ! meu pai...meu pai morreu de barriga  

d'água, estou sem dinheiro e...e  o meu patrão  

não me paga...eu sô trabalhador, num sô ladrão. 

Zé começa a chorar e abaixa a faca 

Joca percebe ser o momento de interferir, senta-se melhor na  

cama e fala calmamente. 

 JOCA 

Senta aqui. Se importa que eu acenda a luz ? 

Zé senta-se choramingando na cama, ao lado de Joca.    ZÉ  Pode acender! 

Joca acende a luz, ele está nu ao lado de Zé que está  

vestido com uma calça jeans surrada, camiseta de político,  

tênis velho rasgado. Joca pega um cigarro e oferece para Zé. 

 JOCA  Você fuma ? 

 ZÉ   Não! 

  JOCA 

Olha para mim, cara ! Vamos conversar. Você  

falou das mulheres. Você não tem namorada, não ?    ZÉ 

As garotas me sacaneiam, me chamam de maluco e  

retardado. 




30 
   JOCA 

Pô cara, você é um garotão novo, forte. Pode  

arrumar trabalho  e  namorada, tem tanta mulher  

por aí... 

 ZÉ    Eu nunca tive namorada ! 

 JOCA 

Tá certo, ainda não pintou alguém para você, mas  

é só uma questão de tempo. De toda forma não  

precisa sair entrando na casa das pessoas com  

uma faca para arrumar dinheiro. 

 ZÉ 

Eu nunca fiz isso...é a primeira vez. Mas o que  

posso fazer...estou sem dinheiro. Eu trabalho,  

mas meu patrão não me paga, tem mais de mês. Meu  

pai morreu na semana passada, de barriga d'água. 

Agora, sou só eu e minha mãe. Nós mora lá pro  

lado do Campinho, eu tenho... 

Zé fica com os olhos cheios de lágrimas e se agita nervoso. 

 JOCA 

Tá bom, tá bom, fica calmo que eu vou te dar uma  

força. Tenho um terreno grande que está  

precisando capinar o mato, não é muita coisa,  

mas já dá prá você ganhar uma grana, tá afim ? 





31 
 ZÉ              Tô, tô precisando.. 

 JOCA  

Então,  hoje é terça,  amanhã vou passar o dia  

fora, vamos marcar prá quinta feira de manhã, tá  

ok?    ZÉ    Tá..tá bom! 

Zé abre um sorriso, que mostra a falta de vários dentes.  

Substitui o sorriso rapidamente, para uma expressão séria.     JOCA 

Agora vai pra casa e me deixa dormir. Você tem 

dinheiro para o ônibus ?     ZÉ  Não ! 

Joca pega umas moedas que estão em um pote ao lado da cama.    JOCA 

Toma aí esses trocados, vai lá. Te espero  

quinta, tá ok?  

Zé de cabeça baixa. 

 ZÉ  Obriga ..obrigado seu Joca. 

Zé se dirige a varanda do quarto, para sair pela árvore, por  

onde entrou.    JOCA  

 Vai pra onde? 




32 

Joca sorri nervosamente do absurdo da situação. 

 ZÉ    Vou embora! 

 JOCA 

Que é isso, vamos por aqui, te levo até a   

porta. 

Os dois descem a escada, Zé desce na frente. 

EXT. CASA DE JOCA / JARDIM - NOITE 

A porta se abre, Zé sai e Joca fica na porta , eles se  

despedem com um aperto de mão.    JOCA 

 Então, até Quinta-feira! 

 ZÉ  Tchau! 

Joca fica na porta observando Zé se afastar pela estrada,  

depois entra em casa, fecha a porta, as luzes da casa se  

apagam. 

CORTA 


INT. PADARIA - DIA 

Joca está com amigos tomando café no balcão. 

CLOSE DO PÃO  

com manteiga derretida, sendo molhado na xícara de café com  

leite. 

VOLTA À CENA 

Joca relata o fato ocorrido. 




33 

 JOCA 

...eu dei o dinheiro prá ele pegar o ônibus e  

ele quis sair pela árvore, aí eu não deixei e o  

levei até a porta, marcando com ele pra vir  

capinar o terreno na quinta feira    AMIGO 1 

Você é muito babaca, acha que vai salvar o  

mundo, tá maluco ? Não vai dar queixa na polícia ? 

 JOCA 

Eu não, o cara tava desesperado, vou entregar  

ele para a polícia ? Aí sim a vida dele vai  

ficar um inferno. Acho que posso dar uma força,  

só isso ! 

 AMIGO 2 

Eu já vi ele aqui na padaria, neguinho chama ele  

de maluquinho. Não é aquele que trabalha com o  

Quinho, na obra do seu Tamoio ?    JOCA 

É sim, ele disse que o Tamoio não paga ele faz  

tempo. 

 AMIGO 1 

Aquele Tamoio é um bom filho da puta, tremen-do  

explorador, eu conheço o Quinho, vive duro. 

 Dono da padaria que prestava atenção a tudo sem dar 





34 
opinião, joga o pano de prato que está em suas mãos sobre o  ombro. 

 DONO DA PADARIA 

O Quinho, tem um prego aqui, que não paga fa-zem  

dois meses. Eu já vi ele acompanhado des-se tal  

de Zé. Não é um russo forte, com cabe-lo rente ? 

 AMIGO 2   É esse mesmo    AMIGO 1    Deixa de ser babaca e entrega ele prós home. 

 JOCA 

Que nada, agora já dei minha palavra. Se eu  

entregar ele, aí sim vou foder de vez com a vida  

do garoto, ele nunca vai ser ninguém. Marquei  

com ele amanhã de manhã,......se ele não vier,  

aí vou começar a ficar preocupado. 

Joca mergulha o pão no café com leite, encerrando o papo, os  

amigos observam, o dono da padaria enxuga o queixo com o  

pano de prato que está em seu ombro, balança a cabeça, como  

quem diz : "tem jeito não" e sai da cena. 

EXT. CASA DE JOCA / JARDIM - DIA 

Galo cantando no jardim, em meio as galinhas que ciscam o  

terreno. 

INT. CASA DE JOCA / QUARTO - DIA 

Joca acorda sobressaltado, levanta-se da cama e olha pela  

janela do quarto em direção ao jardim, avistando o galo e as  





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galinhas que ciscam o terreiro, ao lado do carro. Ninguém no  

jardim, olha para o relógio, olha outra vez em direção ao 

portão de entrada, não aparece ninguém. Enxota as galinhas  

e volta para a cama, deita-se tentando dormir, vira para um  

lado, vira para outro e resolve ficar olhando para o teto  

pensativo, depois olha para a árvore ( a que Zé escala para  

invadir a casa ).  

EXT. CASA DE JOCA / JARDIM - DIA E NOITE 

SÉRIE DE PLANOS  

Com imagens do exterior da casa de Joca( fast ). 

A) Joca sai de casa entra no carro, sai, galinhas passam   

   ciscando, cachorro corre atrás das galinhas. 

B) carro chega, Joca brinca com o cachorro, entra em casa. 

E) anoitece, acende as luzes. 

F) apaga as luzes, clareia o dia. 

G) galinhas passeiam no jardim, Joca abre a porta da frente  

de bermudas, se espreguiça, fecha a porta, sai de casa já  

vestido, entra no carro e sai. 

CORTA 

EXT. CASA DE JOCA / JARDIM - NOITE 

Faróis do carro iluminam a noite, chegando ao portão de  

entrada. Antes de parar o carro manobra iluminando a casa e  

as redondezas. 

CLOSE DA MÀO 

de Joca que mexe na bolsa e pega um canivete automático  





36 
fechado, nervosamente aperta o botão e abre a lâmina. 

VOLTA À CENA 

Desce do carro com o canivete armado em uma das mãos,  

compras e chaves na outra, caminha em direção a porta  

olhando em volta nervoso, ainda com o canivete armado abre a  

porta com as chaves, e entra em casa. 

CORTA 

INT. CASA DE JOCA - NOITE 

POV DE JOCA 

Cachorro pula em sua direção 

VOLTA À CENA 

Joca sorri, fecha rapidamente a porta ,desarma o canivete e  

faz festa no cachorro, se dirigindo para a ... 

COZINHA 

deposita as compras e procura o facão que está no armário 

Pega o facão e se dirige ao ...  

CLOSED 

Deposita o facão sobre a cômoda, esconde o dinheiro sob a  

estátua, tira a roupa da maneira habitual, ficando apenas de  

cuecas. Pega o facão e sobe para o ... 

QUARTO 

Joca pega uma pequena vértebra de baleia , que decora o  

quarto, e a usa como cunha, para  calçar a porta que dá para  

a varanda e que não tem fechadura. A porta, por onde Zé   

costuma entrar. Arruma a cama posicionando o facão ao seu  





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lado, sob o colchão. Tira a cueca e deita-se. Antes de  

apagar a luz, experimenta pegar o facão para checar a  

posição mais apropriada. Ruídos noturnos: grilos, sapos,  

coruja. 

CLOSE NOS OLHOS 

abertos de Joca, que se vira na cama tentando dormir e não  

consegue. Cobre a cabeça num rompante, deixando apenas o  

nariz de fora. 

   CORTA 

EXT. CASA EM CONSTRUÇÃO - DIA 

Garfo de ferro penetra nas pedras ( britas ), MUDANÇA DE  

FOCO para Joca que se aproxima a pé pela rua. Tamoio está  

parado ao lado de seu carro esporte. Joca faz um aceno.    JOCA 

 Bom dia, seu Tamoio!    TAMOIO 

 Bom dia !    JOCA 

O senhor tem um empregado, aqui na obra de nome Zé ? 

 TAMOIO 

Tinha !....ainda bem que sumiu, aquele  

retardado. O Quinho é que dava cobertura prá  

ele, mas o cara não queria nada com o trabalho. 

Quinho está trabalhando na obra e levanta a cabeça para  

escutar melhor a conversa. 




38 
   JOCA 

É que ele esteve lá em casa, outro dia a noite e ........ 

Joca narra os fatos para Tamoio que o escuta, as vezes  

sério, as vezes rindo. Garfo enfia mais uma vez nas pedras  

e CÂMERA ACOMPANHA até descarregar as pedras no carrinho de  

mão. O servente é outro, pega o carrinho e sai de cena, Joca  

e Tamoio conversam ao fundo.    TAMOIO 

 E você deixou ele ir embora ? 

 JOCA 

Marquei pra ele vir na Quinta feira, mas hoje já  

é Sábado e o cara não apareceu. 

 TAMOIO 

Você é muito otário, quando ele virasse as  

costas pra mim, enchia ele de bala, isso sim. 

 JOCA    Mas eu não sou assim, não tenho nem revólver. 

 TAMOIO 

Pois trata de arrumar um, esse cara invadiu a  

tua casa e levou aperto de mão e grana pro  

ônibus. Ele já sabe que tu dá  mole, é capaz de  

voltar.  

 Tamoio termina a frase as gargalhadas. 

CORTA 





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INT. CASA DE JOCA / SALA - NOITE 

Pingos de tinta vermelha caem no chão escorrendo da tela,  

CÂMERA ACOMPANHA o percurso dos pingos, no sentido com- 

trário, passando pelo facão que está ao lado até chegar a  

tela que Joca está pintando. O cachorro late. Joca solta o  

pincel e apanha o facão. Olha pela janela em direção a  

escuridão empunhando o facão. 

INT. CASA DE JOCA / QUARTO - NOITE 

ZOON OUT tela escura para dentro do quarto de Joca que está  

calçando a porta da varanda, com o osso de baleia. Arruma o  

facão sob a cama. Deita-se e cobre-se da maneira habitual.   FUSÃO 

EXT. CASA DE JOCA / JARDIM - NOITE 

Lua brilha no céu, vulto cruza o quadro. Sombra de Zé na  

parede externa da casa. Tênis rasgados caminhando no jardim.  

A arvore se balança. Tênis sobem na árvore, ao fundo a  

varanda com a rede, onde dorme o cachorro. Vulto pula a  

grade de proteção para dentro da varanda. Pega a faca que  

está enfiada na calça. 

CLOSE NA LÂMINA 

que brilha na luz da Lua, a lamina é pequena, pontiaguda e  

afiada. 

VOLTA À CENA 

Sombra de Zé projetada na porta do quarto que dá para a  

varanda, ela está fechada. Ele a empurra várias vezes. 





40 
INT. CASA DE JOCA / QUARTO - NOITE 

Vértebra da baleia que escora a porta vai cedendo aos  

sucessivos empurrões, até que cede totalmente e a porta  

abre-se. Joca acorda e olha sobre o ombro em direção a  

porta. 

POV DE JOCA 

A porta se abre e Zé invade o quarto. 

VOLTA À CENA 

Mão de Joca procura e agarra o punho do facão. Sombra de Zé  

se projeta sobre Joca que está deitado, todo coberto em  

lençol branco. 

CLOSE DA LÂMINA 

Que brilha na luz da Lua. 

VOLTA À CENA 

Zé aproxima-se de Joca, curva-se sobre ele, ficando com seu  

rosto bem próximo do rosto de Joca, mexendo com a cabeça,  

procurando o melhor angulo, para observa-lo. Joca, com o  

rosto parcialmente coberto, observa com o canto dos olhos o  

seu visitante. Mão de Joca, aperta nervosamente o punho do  

facão. 

POV DE JOCA 

o rosto de Zé bem próximo ao seu. 

Não agüentando mais a tensão, Joca fala.    JOCA  Zé ? 

Zé ao mesmo tempo que emite um grunhido como resposta, 




41 

levanta o braço rapidamente, a faca brilha na luz da Lua  

Violentamente desfecha uma primeira facada. A faca se  

enterra no corpo de Joca manchando o lençol de vermelho. Zé  

desfere mais dois golpes violentamente. Mão de Joca alcança  

e puxa o facão, ao mesmo tempo que, levanta-se com o facão  

na mão se protegendo das facadas com o lençol 

Zé golpeia repetidas vezes em diferentes direções. O facão  

cai da mão de Joca. Expressão de horror de  Joca, já com um  

corte no rosto. O sangue espirra brilhando no luar 

A lâmina corta a pele da perna de Joca, logo abaixo dos  

quadris. Joca apavorado se defende com os lençóis. Na   

parede branca do quarto, mão de Zé ensangüentada se apoia  

deixando um rastro de sangue. Zé cai no chão com um chute de  

Joca. Mão de Joca agarra o travesseiro. A luta é uma grande  

confusão de sombras e lençóis manchados de sangue, que hora  

desfraldam-se, hora modelam os corpos ensanguentados. Joca  

alcança o ventilador e o atira violentamente em direção ao  

seu oponente. O ventilador atinge a fronte de Zé , que  

cambaleia tentando ficar em pé. Mão de Joca agarra a  

vértebra de baleia. Joca brandi a vértebra como se fosse uma  

clava, desfechando vários golpes em Zé, que se desequilibra  

e escorrega escada a baixo. O rosto de Joca está todo  

ensanguentado, ele coloca a mão no pescoço na tentativa de  

estancar o sangue, acreditando estar ferido no pescoço. 

CLOSED 




42 

Zé chega ao closed as cambalhotas, esbaforido, manchado de 

sangue e com um ferimento na testa. Levanta-se,  passa pela  

cômoda rapidamente, pega os documentos e a chave do carro de  

Joca e sai correndo.  

CORTA 

EXT. CASA DE JOCA / JARDIM - NOITE 

Zé sai pela porta da frente correndo em direção ao portão de  

entrada, ele está mancando. 

CORTA 

INT. CASA DE JOCA / QUARTO - NOITE 

Joca chega a janela e grita.    JOCA  

 Socorro....socorro 

POV DE JOCA 

do quarto olha o jardim vazio, silêncio, apenas o ruído de  

grilos. Zé já se foi. 

Veste a cueca com dificuldade e sai. 

CORTA 

EXT. CASA DE JOCA / JARDIM - NOITE 

Joca abre a porta da frente e saí, todo ensangüentado,  

cambaleando na direção contrária a de Zé, ainda com a mão no  

pescoço.  

CORTA 

EXT. CASA DO VIZINHO DE JOCA  - NOITE 

Joca chega até uma casa simples, com o pé direito baixo e  




43 

coberta por telhas. Bate a porta. 

CORTA 

EXT. ESTRADA DO CONDOMÍNIO - NOITE 

Zé todo suado e ensangüentado anda rápido, com expressão de  

satisfação. Olha para os documentos e a chave do carro de  

Joca, que carrega em uma das mãos e depois os guarda no  

bolso de trás da calça. 

CORTA 

EXT. CASA DO VIZINHO DE JOCA - NOITE 

Joca bate de novo a porta, que  finalmente se abre,  

aparecendo o vizinho com cara de sono. 

POV DO VIZINHO 

Joca todo ensangüentado, com a mão no pescoço, sem camisa,  

apenas de cuecas.  

VOLTA À CENA 

Vizinho fica surpreso.  

 VIZINHO 

 O que foi isso Joca ?    JOCA 

 Um cara entrou lá em casa e me esfaqueou. 

O vizinho segura Joca pelo braço e o direciona, à um banco  

de tábuas, que está do lado de fora da casa, ao lado da  

porta. Segura a mão que tenta estancar o sangue. Joca reage  

como se não pudesse tirar a mão.     VIZINHO  




44 

 Deixa eu ver o estrago... 


A mulher do vizinho e as crianças rodeiam Joca que está  

sentado no banco. Joca tira a mão do pescoço lentamente,  

incentivado pelo vizinho. O lugar onde estava a mão não tem  

ferimento algum, nem sangue, apenas a marca da mão  

desenhada, que impediu o sangue de escorrer pelo pescoço. 

 VIZINHO  

 Mas aqui no pescoço não tem nada !!! Tá  

 maluco. É o único lugar que não tem sangue no 

 seu corpo. 

Joca sorri. 

 JOCA 

 Eu pensei que ele tivesse cortado a minha 

 jugular. 

CORTA 

EXT. PRAIA - NOITE 

Zé mancando, anda em direção à praia, a rua está deserta. 

CORTA 

EXT. BARRA / INTERIOR DE VEÍCULO ( JOANINHA ) - NOITE 

POV DOS POLICIAIS 

Zé caminhando na areia em direção a água. 

VOLTA A CENA 

Um PM olha para o outro e aponta em direção a Zé. 

CORTA 





45 
EXT. PRAIA - NOITE 

Zé se aproxima da água, ao fundo o carro da policia para e  

policial  desce. Zé começa a se lavar. O policial chega com  

a arma na mão. Percebe que Zé está ensangüentado.    PM 

  Quieto!! 

Zé não olha para o PM e continua a se lavar esboçando um  

sorriso.   Zé  

 Eu sou ele !! 

Zé, com um movimento brusco, leva a mão, ao bolso traseiro  

da calça. O PM  assustado, achando que ele vai pegar uma  

arma, dispara em sua cabeça a queima roupa. Zé cai na areia,  

fulminado, com a carteira na mão. 

CLOSE DE ZÉ 

caído na areia, em sua mão a carteira de identidade e a  

chave do carro, de Joca. 

VOLTA À CENA 

O PM guarda a arma. A lua brilha sobre o mar. Uma onda mais  

forte leva a carteira, das mãos de Zé, sendo resgatada pela  

mão do PM 

FADE OUT 
FIM


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